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Postada em 02 de Dezembro de 2019 às 07h35min

Em grampo da PF, executivo da JBS e ministro de Dilma citam deputado de MT

Geller foi ministro da Agricultura na gestão petista e hoje é deputado federal.

Texto: Rodivaldo Ribeiro/Folha Max
Em grampo da PF, executivo da JBS e ministro de Dilma citam deputado de MT
Foto: Reprodução/Record
Reportagem exclusiva do Jornal da Record (Rede Record) exibida em todo país no dia 20 do mês passado mostrou interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça indicando pagamentos milionários ilegais na ordem de R$ 6,5 milhões de Joesley Batista — dono da JBS, maior frigorífico do planeta — ao PT da então presidente Dilma Roussef. As gravações citam, entre outras pessoas, o deputado federal e ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Neri Geller (PP).

Conforme a reportagem, as supostas transações são alvo de investigação conduzida pela PF (Polícia Federal) e teriam sido realizadas durante a campanha pela reeleição logo depois do segundo turno, cujo resultado foi a manutenção do Partido dos Trabalhadores no cargo por mais quatro anos (ou até que viesse o impeachment). A conversa que cita Geller acontece entre Edinho da Silva, ex-coordenador daquela campanha e Ricardo Saudi, executivo da J&F, controladora da JBS.

Em novembro de 2014, Edinho orienta o empresário a ligar para Manoel Sobrinho, braço direito de Edinho, segundo a investigação da PF. “O Manoel vai te passar as orientações certinho”, diz Edinho, que é interrompido por Saudi: “Ah, eu já sei então, ele falou que tá tudo certo?”. “Não, mas aquele que o Manoel passou, é, tem uma mudança...”, “ah, eu sei da mudança, então tá bom, eu vou ligar para ele agora”, “ó, é uma mudança e o negócio lá de Mato Grosso você conversa com o Neri, tá?”, “Do Mato Grosso, ah é, liga pra ele?”.

Na sequência, Saud liga para Sobrinho e ele pede para entrar em contato com Walfrido dos Mares Guia, na época responsável pela coordenação da campanha pela reeleição em Minas Gerais. Mares Guia também foi ministro das Relações Institucionais e do Turismo no governo do ex-presidente Luís Ináacio Lula da Silva. “Liga para Mares Guia, você tem o telefone dele, não tem”. “Quem? O Walfrido?”, “Isso, o Walfrido”, “deixa só eu reconferir aqui, um email para Minas Gerais...”.

É quando aparece a citação novamente a Neri Geller, no Ministério da Agricultura. Textualmente, ele fala quanto caberia a ele como repasse. “Na verdade eu tinha te falado que era um de Minas e não é. É um e meio (ao fundo, uma mulher fala “de cem”)”. “Ah tá, e o meio do Mato Grosso continua?” “Isso”.

Dilma Roussef e o PT mineiro deveriam receber juntos R$ 6,5 milhões. “Cinco da Dilma também?”, pergunta Saud, que ouve a confirmação de Manoel Sobrinho: “Isso”.

A PF quer saber a origem do dinheiro, se este foi declarado como doação de campanha e como esses dinheiros foram utilizados. A suspeita dos agentes da PF é o fato de os telefonemas acontecerem um mês depois das eleições e que os valores tratados nas ligações eram fruto de propina da J&F em troco de favores do governo, como já acontecia nos anos anteriores.

As ligações são desdobramento da Operação Capitu, que investiga o esquema de corrupção dentro do Ministério da Agricultura quando Geller era o titular. Ele, aliás, chegou a ser preso nas primeiras horas da manhã do dia 9 de novembro de 2018, por homens da Polícia Federal, na cidade de Rondonópolis (distante 220 quilômetros de distância de Cuiabá).

No mesmo dia, além dele, também foi alvo o ex-secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) Rodrigo Figueiredo. Rodrigo, durante a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chegou a ser nomeado ministro interino de Cidades e mais à frente Secretário Executivo de Cidades.

Na data citada, agentes da PF fizeram cumprir um total de 19 mandados de prisão e 63 de busca e apreensão em seis estados do Brasil. A operação batizada com o nome da personagem clássica criada por Machado de Assis no clássico da literatura mundial Dom Casmurro investiga o suposto esquema de corrupção montado dentro do Ministério da Agricultura durante pelo menos todo o período de governança da ex-presidente — ela foi cassada pelo Congresso em um processo de impeachment — Dilma Roussef.

Neri Geller foi o número um do Mapa no período compreendido entre março e dezembro de 2014. Ao lado dele também foram presos o vice-governador de Minas Gerais, Antônio Andrade (MDB), e o próprio sócio-executivo e um dos três donos da JBS, Joesley Batista, como resultado de mandados de prisão preventiva expedidos pelo Tribunal Regional Federal da Primeira Região para serem cumpridos em Mato Grosso, Minas Gerais, Paraíba, no Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro.

A Operação Capitu em verdade é desdobramento de outra operação maior, chamada de Lava Jato, e foi criada com base na delação premiada firmada pelo doleiro Lúcio Funaro com a justiça brasileira. No entendimento da PF, todos os detidos estariam envolvidos no esquema ilegal de arrecadação de propina criado dentro do MAPA para favorecer os políticos do MDB. Eles receberiam dinheiro da JBS — dos irmãos Joesley e Wesley Batista, também delatores favorecidos — a troco de medidas que mantivessem os benefícios fiscais, de incentivo e outros recursos para expansão vindos do BNDES para as empresas do grupo, que comprava plantas frigoríficas em sequência em Mato Grosso.

Sempre conforme os relatórios das investigações, todas as empresas componentes da trading Grupo J&F tinham um duto aberto de dinheiro sendo distribuído entre políticos e partidos, com anuência de duas grandes redes varejistas de Minas Gerais, que atuavam no esquema via conselho diretor. Como na JBS, tudo era tratado pelos executivos e seu CEO.

Neri Geller foi eleito como quarto candidato a deputado federal mais votado de Mato Grosso na eleição de 2018, quando recebeu nada menos que 73.072 votos.

OUTRO LADO

Neri Geller não se manifestou sobre a reportagem da Record.


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